A Lunática

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Belém, Pará, Brazil
Nutricionista. Canta por aí. Escreve sobre o que vë, ouve e imagina. Ela é aquariana, rapaz uma eterna colecionadoras de momentos e de pessoas. Inconstante e com uma personalidade gigante assim como o mar. A diferença é que ela vai, mas não volta.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Coração Pirata



Tem uma certa mágica nos bares. Ou no álcool. Não descobri ainda. Vai ver que é a junção de ambos somado a dois corações partidos. Fazer o quê se a infelicidade adora companhia. É, ele estava lá, bebida na mão e a falta de direção nos pés, normal se você pensar o quanto nos amaldiçoamos depois do fim. O fim pra ele. O momento final pra mim. Destino tem dessas travessuras: adora brincar com peões em tabuleiros onde reis e rainhas ainda estão de pé. O segredo do álcool é o seu incrível efeito de ligar o foda-se quando tudo ao redor já está fodido mesmo. Rei e rainha, quem se importa? Eu não. E pelo visto nem ele. Se beijos por imensa vontade e atração ainda estão na moda eu não sei. O que sei é que sim. Tive vontade e arrisquei. Medo sente quem tá sóbrio, coragem é o ápice da loucura quando se sabe que amanhã essa euforia toda vai passar. Quem liga? Ele também não. E foi bom. E foi intensamente bom. E eu queria mais. No entanto, há uma imensidão de consequências guardada naquele beijo sob a cumplicidade do que se tornou nosso maior segredo. Que todos fechem os olhos então. 

Quando a viagem se torna memória longa você quer ir de novo, não quer? Que seja. O mundo lá fora desaba e salve-se quem puder. Nessa bagunça, desorganização, confusão, tudo está de cabeça pra baixo. Decido portanto assistir o passado escorrer pelo rosto e engolir o máximo que eu puder de algo com teor alcoólico entre 35 a 60%. De repente vejo o moço de piadas engraçadas vagando pelo mesmo caminho, ambos estamos delirando sobre parar de beber, fumar e tentar entender o por que dos nossos últimos relacionamentos terem sido uma merda. Rimos juntos e falamos sobre o nosso pequeno segredo da noite anterior. Sentimos disparar o alarme do desejo. O tempo parou assim como nossa razão, o bom senso,a moral ou sei lá mais o quê. Eu podia sentir cada parte de uma vontade estranha tomar conta das nossas mãos entrelaçadas pelo suor. Talvez tudo fosse um grande, maluco e inquestionável erro. Mas e daí? Até onde sei não estamos pedindo proteção quiça perdão, estamos? Somos os únicos mergulhados em não perder sequer um segundo. Não há mais preocupação. Somos donos do nosso recomeço e da nossa incorreção. Se a colheita dos nossos atos nos puserem no alvo dos questionamentos seremos sempre réus em negação confessa. 

E quando a luz do sol ultrapassou o vidro da janela o encanto não se desfez, pude observar cada centímetro do meu arrependimento tardio e era tão belo; E facilmente gostável. Calcei os sapatos e coloquei o cinto pra lembrar que a realidade estava lá fora esperando por nós dois. Separados. E sem previsão de um bis, uma reprise, um flashback, uma repetição. O abraço. A porta aberta. O cheiro e a lembrança da noite divertida bastam pra sorrir muito ao imaginar que o rei e a rainha não ficariam felizes em descobrir tamanhã traição, pelo menos não se ainda estivessem vivos pra contar. Calma, não estão mortos literalmente. É só uma metáfora esquisita e sombria pra dizer que a vida seguiu em frente logo depois que os exs resolveram se juntar. Palmas. Mais palmas. Eu ouvi uma ovação geral? Tudo bem, eles merecem. Se merecem. Segue o baile. 





domingo, 11 de dezembro de 2016

Acabou Meu Bem



Acabou meu bem. Você tá ameaçando minha tranquilidade aparecendo no meio de uma história que não é sua. Ouvindo sobre alguém que não é você. Você tá me confundindo parado aí enquanto falo repetidas vezes que você precisa ir. Sério. Não tem nada aqui. E não, não é por proteção ou segurança. É escolha mesmo. Preciso de um tempo entre meus planos e eu. São tantos planos. Você não cabe, não tem espaço, nem uma beirinha como você tem pedido. Eu aplaudo seus esforços, é bonito de ver. Pra sua alegria e informação, sim, eu cogitei a ideia de deixar você permanecer, porém não era o certo a fazer. Eu adoro suas ligações no meio da noite, aquelas que me acordam e as que me mantem distraída por horas longas de conversas em tardes estressantes de trabalho. Você nunca fica entediado com meu sonho de montar uma banda, largar tudo e rodar o Brasil. Mas acabou meu bem. Não é legal deixar alguém por aqui por conveniência, por ego, por distração ou apenas pra ocupar um cantinho que ficou vago recentemente.

Por aqui tá de boa, coração que anda bem é melhor não ocupar, já ouviu essa frase? Não precisa se preocupar, não vou surtar, mas também não vou te agarrar como uma oportunidade de esquecer quem acabou de passar. Embora tenha sido inconsciente e quase invisível aos meus olhos, a tentativa de esquecer alguém com outra pessoa, cá pra nós, não deu muito certo. Então vamos com calma. Não é pra sempre. Nada é pra sempre. E também se você tem toda essa vontade aí de me fazer feliz e sei lá mais o quê, você consegue esperar, não é? Prometo nem demorar. Só não fica preso e nem fecha esse teu coração, coração aberto serve pra ambas situações: Deixar ir e Deixar chegar. Eu agradeço se me deixar escolher o tempo pra fazer as duas coisas. É uma fase de caneta e papel em branco que combina bem com esse contagem regressiva para o novo ano e eu tô tão animada com as possibilidades de me reinventar. 

Ei? Não vou esquecer o quanto cê me fez rir dos desencontros. Cê fez aquele drink engraçado com gosto de chá gelado que curou minha ressaca moral. Cê me deixou te apresentar a tequila com o ritual sal, limão e depois cerveja que eu sei, você também não vai esquecer. Cê me ouviu falar do mesmo assunto por dias, ouviu minha raiva, a decepção e conseguiu controlar minhas emoções dizendo "Respira fundo, finge que é 7:30 e começa tudo de novo". Eu sei, tenho sorte pra ca-ra-leo de você ter atravessado a tal da história que nem era sua. Tenho sorte por sempre me atender mesmo quando não é pra falar de nós ou de você. Eu já me endividei inteira contigo, cê faz tanta coisa bacana por mim que espero poder retribuir com um valor tão alto que zere nossas contas, mas que te faça nunca sair de perto. Fique perto. Eu sei, acabou meu bem. No entanto, se puder, me espera. Eu vou ali rapidinho colocar as ideias, o coração, o sentimento e a alma no lugar. Vou ali guardar a saudade e uma carta na caixa do destino pra ninguém encontrar. Por agora, acabou meu bem. Quando sair bate a porta, mas não esquece que qualquer hora eu volto pra te buscar



sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

A Dose de Amor que Preciso





- Então me diga, em que posso servi-la? 

- É simples, uma dose pura de amor, do mais ardente que cê tiver por aí, aquele que queima por dentro, sabe? Que devasta tudo? Ando precisando de uma sacudida, de um amor que me revire, me renove, me [re]ensine o gosto da loucura que é desejar alguém novamente. Não se acanhe não moço, pode servir, quente por favor, o gelo pesa, o frio não faz efeito e eu preciso vivenciar essa dose descendo pela garganta. 

Destilar o sangue em algo forte me permite sentir coragem correndo nas veias. Há uma hora eu nem sequer sentia nada, que dirá coragem pra dar o fora de tamanha prisão mental. Hey moço, não me olha assim, não me julgue injustamente, sei bem do que tô falando. Me custou um esforço imenso calçar essas botas pretas, chamar um táxi e vir até aqui. Me custou engolir os conselhos de quem nem me conhece, me custou entender quem era aquela mulher refletida no espelho envaidecida ao passar batom vermelho. Inutilmente demorei tempo demais querendo viver conto de fadas. Contos de fadas são só imaginação moço e a ambição pelo amor eterno já se foi e o que restou é isso aqui, consegue ver? Essa sou eu, eu e toda minha força de vontade em [re]começar. 

Por essas razões que te peço moço, avise a quem vier que entre pela porta da frente, a entrada é franca, mas advirta que não venha pra ficar, não há morada aqui, não há planos, nem sequer lugar. Nesse momento eu não acato ordens, nem desejo ser contrariada, culpas não existem, nem boas intenções. Só há pressa em ser feliz. Pressa de viver. Meu tempo é pouco moço, as horas são contadas, cada segundo meu vale uma vida inteira, por isso se ele insistir em pagar minha bebida, deixe rolar. Se o universo conspira eu não tenho porque esperar, certo? Eu quero sentir e quero já. Agora, sem pensar, sem ficar pra depois. Eu quero sorrir, cantar alto, discutir afinidades astrais e brindar ao destino. 

Quem disse que a junção de dois corpos em uma noite não pode ser amor? E se ele for amostra grátis da dose pura inicial? Que seja moço! Pode servir. Esse amor que amanhã sumirá no espaço foi exatamente o que pedi.


sábado, 3 de dezembro de 2016

Um Abraço. Um Doce. Um Café. Pode Ser?



Espalha aí suas coisas, ocupa o espaço, preenche o vazio, tá tudo tão desocupado mesmo. Fica a vontade, tira os sapatos, esparrama sua presença no chão, na cama, no sofá, já falei que essa área aqui tá há um tempinho desabitada? Completa a metade e sinta-se em casa. Posso até ser morada se quiser. Ou não. Posso ser abrigo, mas não obrigo, só peço, vem, arranja uns minutinhos, veste o coração, usa o verão, estação bonita pra arriscar a ser feliz, cê não acha? As pessoas andam ocupadas demais, as horas estão se tornando incontroláveis e a vida? Essa não tem sido fácil pra ninguém. Mas a gente tenta, é corajoso tentar, é ato de bravura enfrentar o mundo sem ter medo. Sentimento bom esse de desarmar o peito.

Procura lá fora não, o céu é mais azul do lado de cá e se o tempo fechar, preocupa não, se chover te empresto guarda-chuva, toalha seca e faço da temperatura do meu corpo um jeito divertido de te esquentar. Você ri, eu acho graça, viu? A gente combina, se acerta, se entende, mas se nada der certo, relaxa, não estressa, a gente junta tudo e faz simpatia, sabe como é? Três pulos, três desejos, três pedidos, três sonhos, se enviarmos a corrente pra três pessoas aí já era, em três dias tudo que vier é só nosso, a gente dá três tapinhas nas costas do cupido e agradece o favor jurando que vai ser pra sempre, mas só até o sol se pôr. Fica tranquilo, se pensamento for positivo a gente volta a se vê, daí te ofereço um abraço, um doce, um café, pode ser? 

Nas luzes da cidade anda só não, se joga aí, deixa estar, essa paz não te dá vontade de cantar? De ficar? Espera hora certa não, brinca de ser dono do teu tempo, passa o dia me encantando, a gente dança ao som do vento. Corre aqui, se deixar posso até não me cansar de te ver dormir. Vambora, vem comigo, no caminho eu te explico, confia, me dá a mão, fecha os olhos e pula no três. Você também quer, eu sei. Me envolve nos teus braços, me aperta em abraços, me acolhe com teu sorriso, seja a fonte do meu prazer, não é isso viver? A felicidade de enfim pertencer? Se disser que sim eu sigo concordando, mas só até amanhecer. Descomplica, a mente produz, o universo concretiza. Te dou um beijo, um beijo longo, intenso, perfeito, mas não se engane meu bem, um beijo assim nunca é de despedida. 




sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Amor em Quatro Atos


Na primeira vez foi um sentimento platônico bonitinho que tinha cara de amor. Foi encanto pelo ombro prestativo do meu melhor amigo e seus olhos verdes fascinantes. Foi tanta imaginação. Tanta criação. Tanta fantasia. Tanta invenção. Foi nós e o mundo de possibilidades desfeitas pelo adeus que empurrou meio que ladeira a baixo nossa confissão. Na primeira vez foi saudade não dita, mas doída. Foi a tristeza de vê-lo partir me deixando numa pequena bolha onde aprendi a conviver com o "e se...". Escrevi bem mais que 365 páginas de um diário que ainda guardo no fundo de uma caixa qualquer. Ele foi a primeira inspiração de ensaios textuais sobre a espera de um amor que quando retornou já havia deixado de ser amor. Ironicamente, como disse, nem era amor. Amor sobrevive, paixão não. Na primeira fez achei que fosse me desfazer em lágrimas. Mas continuei inteira, sem cicatrizes. 

Na segunda vez foi atenção conquistada pela insistência do moço que me fez entender que as vezes em um coração pode caber mais de um sentimento. Ele foi amor. Eterno amor do encontro a despedida. Foi o inesquecível. Do seu jeito, com suas limitações de tempo e distância foi capaz de proporcionar uma felicidade inquestionável. Eu desejei que essa fosse a última vez por saber que já não havia mais nada que eu quisesse encontrar ou viver quando tudo o que eu queria em um parceiro estava ali, embora eu jamais pudesse fazer planos com ele. Ele foi o céu e o inferno. O doce e o amargo de uma relação sem alicerces ou futuro. Ainda assim ele foi a sinceridade, a verdade, a lealdade, cumpriu cada palavra, cada frase, cada promessa até o fim mesmo o nosso amor sendo infinito. Na segunda vez eu achei que não suportaria a dor e os pesadelos. Mas a dor me fez mais forte. Passou. Assim como a insônia.

Na terceira vez eu quase morri. Eu quase enlouqueci. Eu quase me perdi pra sempre. Na terceira vez eu pintei como amor. Eu acreditei que era amor. Eu detalhei em explicações que era amor. Na terceira vez nunca, nunca, nunca foi amor. Foi só um capricho, uma conquista, um passatempo, uma distração pra alguém entendiado com sua própria vida. Dele não sobrou nada. Ele fudeu com todas as memórias, foi a pior motivação dos textos que escrevi. Sendo ele minha maior decepção, minhas mais tristes lágrimas, minha mais profunda dor é que se tornou a pessoa que me ensinou a abandonar o barco antes de me comprometer, antes de me envolver, antes de desenvolver qualquer afeto, qualquer apego, qualquer sentimento que sei que pode me lançar no limbo. De lá já ressurgir. Pra lá não pretendo voltar. Na terceira vez eu achei que fosse morrer. Mas descobri que ninguém morre de amor. Nem quando não é amor. Não se morre por excesso. Nem por exagero.

Na quarta vez foi rabisco, rascunho, esboço de qualquer sentimento que não progrediu. Não foi amor porque amor exige uma história. Não foi paixão, pois precisaria de toques, contato, arrepios e querer intenso, irresistível, incontrolável. Na quarta vez foi a conversa mais agradável, psicológica e engraçada. Ele foi o ser humano especial que aprendi a admirar pelos olhos dos outros e de como estes o definiam. Ele foi surpreendente em tudo. Ele foi o cuidado que minha personalidade construída por três tentativas não soube agradecer. Ele foi a voz do outro lado, a voz calma, serena e por vezes preocupada que eu nunca quis perder. E perdi. Na quarta vez foi desencontro, contrário, oposto que poderia ser qualquer coisa. Desde uma noite esquecível até simplesmente nada. E adivinha só? Foi nada. Mesmo que se queira muito não há como querer por dois.  Doeu, sempre dói. Costume é uma droga. Entretanto, idas e vindas, partidas e chegadas, finais e recomeços nesse histórico de relações catastróficas ensinam que tudo passa. É só fechar os olhos, não dar atenção aos pensamentos, não fazer a vontade dos dedos na madrugada. E o mais importante, nunca olhar pra trás e nem pra ultima visualização do WhatsApp quando se decide seguir em frente.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Eu Vou Desembarcar


Pontadinha chata de arrependimento que fica cutucando a mente toda vez que o dia acaba e tô lá deitada tentando dormir. Tô sabendo as consequências de cada decisão e mesmo querendo voltar atrás e mudar o começo, não dá, não rola. Essa coisa de destino é meio que carma e a gente não pode espernear não, tem que aceitar. Não posso mudar o momento em que te conheci. Muito menos o momento em que fiz de você meu próximo passo. O certo era ter jogado seu número naquela lata de lixo localizada a esquerda da tela do celular. Mas pelo que sei a gente nunca faz a coisa certa quando a agitação e a euforia começam a colorir aquela nuvem cinza que nem o carinha da fila do pão aguenta mais. Viver o novo é sempre tão espetacular e animado, não é? A vida ganha inspiração e a gente ganha aquela sensação gostosa de que até que enfim estamos caminhando pra frente.

Até que a alegria expansiva se dissipa com o tempo. Esse mesmo tempo que serve pra dar aquele empurrão e causar o suspense mágico também serve pra cansar nossa beleza e encher o saco. Sério. É o insight de que tudo não passa de algo que já perdeu o brilho, a cor e a vontade. Quando acaba a vontade, meu bem, acaba tudo. E eu já perdi a vontade de você. Vim lá da fase da desilusão, caminhei em passos lentos pela superação até chegar na porta das chances que se abre a novas pessoas. E como um ciclo que não se encerra, prevejo a desilusão e essa ressaca, sabe como é? É complicada demais. Tô fugindo de complicações, de problemas, de satisfações, de ter que fazer escolhas, isso afinal não é função do destino? Seja feita a vossa vontade. Só não fica perturbando minhas horas sagradas de sono me fazendo pensar sobre o que já foi se eu não nasci com poderes sobrenaturais de voltar ao passado.

E foi aí que cheguei a conclusão que meu carma pode ser mais tranquilo se assim eu desejar. Então por que me preocupar? Só sei que agora cada vez que aperto “enviar” mando um foda-se simpático pra aquele medo de perder você. Dane-se a chateação, tô sem tempo pra dar importância aos piripaques e silêncios por cada palavra que eu realmente quero dizer. Cada um lida com seus carmas, dores, finais e desejos do jeito que lhe convém. Já me acostumei com essa bússola quebrada que carrego no bolso e que só aponta a direção errada. Tomei consciência de que se não sei nadar o melhor a fazer é desembarcar desse barquinho furado que não suporta nem uma ventania quiçá um temporal que sinto estar por vir. Eu já cansei de naufragar e ficar submersa tentando não morrer. Não morrer de verdade, idiota. Digo morrer de amor. Alguém já morreu de amor? Acho que não. Então dá licença que vou ficar em terra firme só pra não ter que testar se consigo ressuscitar uma segunda vez.



terça-feira, 22 de novembro de 2016

A Chuva Fria de Novembro


Então é Novembro. O mês chuvoso. O mês sombrio. Invento desculpas e arrumo as malas pra voltar pra você. Ouço o barulho lá fora, é você estacionando o carro, veio se despedir. Todo mês era o mesmo roteiro: beijo na testa e um se cuida seguido de volto logo. Era 24 de novembro, ouvi o telefone tocar depois de uma semana sem notícias, mas o silêncio nunca me preocupou por ser nosso maior e melhor cúmplice. Alguém se identificou, lembrei do nome, mas não reconheci a voz. Acidente. Chuva. Hospital. Traumatismo. As últimas frases ficaram inaudíveis. E eu emudeci no canto de um banheiro qualquer, fiquei ali por tanto tempo, fiquei quieta, calada, sozinha, inspirando e respirando tão rápido. Horas depois enlouqueci quando o verdadeiro desespero tomou conta de mim.

Você não voltou. E meu sofrimento parecia não ter fim. Vi os dias passando, contei as horas e fiz da minha cama um lugar seguro do qual não sentia vontade de sair. Eu via você. Em todo lugar. Em todas as lembranças dos três anos incríveis que você me fez viver. Você foi egoísta demais me deixando. Quem deixa uma garota de 22 anos perdida e sem direito do último adeus? Foi cruel perder você. Foi cruel imaginar tanta vida sendo tirada de uma forma tão injusta. Eu achei que eu fosse morrer de tristeza. De solidão. De tanto chorar. Descobri o que é depressão depois de aceitar ajuda pra superar o que sozinha jamais conseguiria. Demorou anos pra passar. Até que enfim encontrei o lugar em que você foi colocado pra descansar em paz.

Pensei que depois de algum tempo fosse ficar mais fácil, mas é o quarto ano, arrumo as malas e visto o luto mais uma vez. Voltar ainda exige demais de mim. A viagem até aqui é uma tortura mental. Os pequenos gestos, a sua forma de me conquistar, as conversas que viravam as madrugadas, nossas brigas, as desculpas, as noites com os amigos, o bom dia, o café da manhã, nossos longos abraços, os finais de semana, os programas simples, o brilho nos seus olhos e o som da sua voz. Me arranca o coração saber que não ouvirei sua voz novamente e que nenhuma lembrança dessa voltará a ser uma realidade minha. Eu só sei pensar no passado e na promessa quebrada de que se eu pedisse você sempre voltaria pra mim. Volta pra mim.  Mesmo na distância infinita e na dor eu acredito que um dia vou poder olhar pra trás sem o peso do inacabado, mas enquanto esse dia não chega, no meio de todas as minhas crenças eu  rezo por você, não posso mais te ver, mas sei que posso sentir. Que ao seu lado tenha um lugar guardado pra mim. pode demorar um pouco, mas quando chegar a minha vez, sei que te encontrarei por aí. Onde for. Onde você estiver.


domingo, 20 de novembro de 2016

Desculpe, Eu Pensei Que Fosse Amor



Desculpe, eu pensei que fosse amor. Mas não é. Tudo bem, não se sinta mal, por um longo tempo acreditei mesmo nisso, dei o sangue e o suor por essa relação, mas confesso nunca dei a alma, pelo que li e ouvi, amor que é amor é mais do que uma convivência enlaçada pela frase "eu te amo". Amor é se reconhecer em alguém ao primeiro toque, é dividir, doar, trocar, sentir a alma do outro. Nesse ponto você concorda, não é? Nós dois nunca vivemos essa mágica. Eu te vi e quis, assim começamos aquela paixão. O desejo nos uniu, não o amor. Você pode definir o que vivemos como quiser: Carência, costume ou destino de momento. Pode se quiser colocar a culpa em falta de opção, em falta do que fazer, em mal entendido só não tenta, por favor não tenta me convencer de que estou equivocada e que minhas conclusões são devaneios de alguém sem coração. Meu coração sabe melhor do que qualquer órgão que nosso prazo venceu baby.

Não posso desfazer o passado, já cometi o erro, a burrice de tomar decisões pela insegurança de ficar só. Você precisa parar de me olhar assim, de procurar em mim aquilo que não existe e nunca existiu. Só assim vai conseguir enxergar que jamais me entreguei totalmente, que sempre estive me esquivando das decisões sérias e dos planos futuro. Me desculpe se pra você é amor, odeio ser a garota que não obteve sucesso em corresponder a tantas expectativas. Me desculpe a falta de tato e a desconsideração é que preciso dessa frieza no olhar pra arrumar a coragem necessária pra deixar alguém tão bacana como você. Não é amor, mas isso não quer dizer que não desenvolvi sentimentos. Aliás essa pequena parte de mim te fez feliz a ponto de você sentir amor, não foi? Mas vai por mim, ainda não é, sabe? De verdade, quando for você vai saber e vai entender o porque de eu estar escancarando o jogo e largando no seu colo todo esse desapego.

Anota aí:  Quando ela chegar os dois serão dignos um do outro. E não, não adianta abrir a boca pra tentar argumentar. Não há mais o que dizer. Nem o que salvar. Eu realmente preciso ir. Assim. Sem volta. Sem dar esperanças. Sem promessas. Medo do que os outros vão falar? Você me conhece, nunca me importei. Medo de decepcionar você? Isso já não me prende mais. O direito de amar e ser feliz é de todos e eu me desprendo desse relacionamento me devolvendo esse direito. Não se culpe, pense que filha da puta eu seria se ainda continuasse ao seu lado envolvendo você nessa farsa insustentável sentindo o insuficiente. Então não se reprima, coragem homem, vai, pode jogar toda a culpar em mim se isso for o que precisa pra conseguir seguir em frente. Siga em frente. Só não esqueça que foi olhando em seus olhos que eu disse adeus da forma mais cruel admito. Mas mais sincera impossível meu bem.




sábado, 19 de novembro de 2016

Um Outro Alguém


Amor.
Amizade.
Paixão.
Amizade.
Atração.
Amizade.

Não me da um ultimato desses esperando uma resposta sincera. Vou enrolar. Ou dizer qualquer coisa sem significado especial só pra não ter que machucar você. Não quero machucar você. Não tenho como responder porque a verdade é que não sei mais de nada desde que você atravessou o meu caminho e fez da minha vida essa bagunça enorme e essa confusão imensurável que não me permitem um raciocínio lógico sobre dois sentimentos que não posso escolher. Nem admitir. Então mudo o assunto, troco o disco, disfarço as evidências e repito a historinha de que não quero me envolver. Não com você. Nego qualquer acusação. Me faço de segura pra esconder o medo de te perder pra uma saudade que não é sua. 

Me desculpe. Somos um erro, você não vê? Um erro do qual não consigo me desfazer porque ao seu lado tudo parece tão certo, as horas nos deixam a vontade, o tempo se encaixa na conversa, nos risos, na cumplicidade e nas confidências que sem a nossa amizade seria impossível viver. Não posso perder nossa amizade pra atração. Não posso transformar essa amizade em paixão. No entanto, quando te beijo sinto que já não posso abandonar você. Então te peço. Não me diz mais sim. Não me deixa convencer você com minha carência e meus pedidos na madrugada. Não me ajuda a colocar na nossa conta de culpa o silêncio que fica entre a gente na manhã seguinte. Não complica a minha indecisão com esse cuidado e esse abraço que ajudam a dividir meus problemas com você. 

Eu me proíbo de te querer. Eu digo não. Mas chega a ser um não tão baixinho que não convenço nem a mim mesma. E quando me vejo já estou lá te pedindo outra vez e ouvindo você me perguntar o que eu realmente quero. Se ao menos você soubesse que ele tá aqui mesmo sem estar. Tá na voz que me acalma do outro lado do celular. Tá nesse desejo que já conheço tão bem. Tá nessa reviravolta de sentir e não mais sentir. Ele me tem sem ter porque ele é o quero. Mas não posso dizer. Porque você é a dúvida no meio da minha certeza que embora eu tente explicar você não vai compreender. Não vai entender como alguém que sempre te contou tudo tem escondido a verdade. Não me da um ultimato desses esperando uma resposta sincera porque preciso da nossa amizade pra me sustentar quando ele me fizer arrepender de não ter dito quando tive chance. Eu me apaixonei por você. 



sábado, 12 de novembro de 2016

Faz Parte do Meu Show



Não fico pro café da manhã, na maioria das vezes junto do chão meus desejos, guardo na bolsa os pertences e saio sem anotar o número do telefone. Levo os sapatos nas mãos, arrumo os cabelos e deixo pra trás mais um cara sem nome com a certeza de que foi inesquecível. Mas nunca é. Eles nunca são. São apenas rostos bonitos que dependem da quantidade de vodca que me sirvo. Deles não memorizo endereço. Pra eles não tenho nenhuma pretensão de voltar e não faço questão de ser procurada no dia seguinte. Me animo em ser esquecida e se tiver sorte prefiro nem ser lembrada. Não se assuste se lhe disser que me divirto ao ver aqueles garotos investirem seu tempo com aquele papo barato que já conheço de cor, dou um sorriso fingindo estar me enganando e digo o que eles querem ouvir.

Certos homens possuem tanta confiança em ser irresistíveis que esquecem que mulheres inteligentes podem enganar com palavras tanto quanto eles. Afinal, o tempo e as experiências ensinam bem como devemos mentir sobre o que sentimos e sobre o que não sentimos. E promessas todos nós podemos fazer sem termos realmente a intenção de cumpri-las. Há uma sensação perversa e gostosa quando se aprende a iludir. Não é assim que se segue em frente depois de ter sido quebrada?  Depois de um tempo em inércia estamos prontas pra testar o beijo, testar o papo, testar o gosto até sentir que algo vale a pena. Mas nunca valem. E todas essas noites não conseguem proporcionar a qualidade do que já vivi e conheço bem. Esses encontros são tão superficiais, insuficientes e com tão pouco a oferecer. Engatar uma conversa bacana tem sido cada vez mais difícil. É como se eu estivesse procurando o que sei onde encontrar, no entanto, não posso mais pedir que fique. E não posso mais me sentir presa em um só lugar. 

Não há um manual de instruções sobre como se reconstrói um coração. Cada ser humano é responsável por descobrir o próprio jeito de lhe dar com seu inverno/inferno particular. Alguns choram, outros acham que a solução está no fundo do copo de qualquer bebida que o dinheiro consegue pagar. Tem gente que faz brigadeiro ou compra sorvete. Tem gente que assume uma nova relação na noite seguinte, esses são os mais inteligentes ou os mais burros, vai saber. Eu? Me arrumo, escolho o melhor salto e saio do meu aquário em close pra me divertir sozinha. Não sinto falta, não sinto solidão, não sinto tristeza, nessas horas o melhor é não sentir nada. Da minha vida não falo, há segredos que nem o travesseiro seria capaz de entender. O fato é que não conheço inocentes, mas não importa muito quando a diversão só acontece no meio dos culpados. E geralmente todos guardam alguma culpa.


quinta-feira, 10 de novembro de 2016

O Amor Não Machuca



Em estado de choque é como você fica quando reconhece o momento em que a vida se divide em antes e depois. Algumas pessoas tem a sorte quando esse momento se torna uma recordação feliz. Mas por aqui essa sorte não passou. E ainda que seja apenas uma memória, não tenho como apagar as marcas que mesmo desaparecidas dos meus braços insistem em não sumir de vez. Embora a dor física tenha me deixado inerte por quase um mês nada se compara as consequências da dor psicológica causada pelas decisões erradas e pelas mãos que juravam amor. O amor não machuca a gente. Não deixa hematomas por todos os lados pra serem encobertos com maquiagem e roupas estranhas. Quem usaria calça jeans em pleno domingo? 

Perdi as contas das desculpas que inventei. Perdi a conta dos dias das diversões que disfarcei. Sempre sorrindo, sempre de bom humor quando minha mente estava o caos e ele? Ele não se cansava de voltar. Enquanto eu? Eu só me cansava cada vez mais das noites em que fingia beber o que nunca desceu pela garganta. Eu nunca estive tão sóbria. E admito, nunca me senti tão perdida. Mesmo sendo a melhor amiga do silêncio, esse tem me sufocado e transbordado pelos olhos a ponto de olhar pra mim e não me reconhecer mais. Eu quem sempre fui a companhia alegre e feliz não ando suportando o muro de estresse, desconfiança e agressividade que levantei em volta. E as vezes eu verdadeiramente sinto muito por isso ser tão incontrolável. E necessário. 

Se eu conseguisse explicar o quanto me irrita esse “nada” que respondo cada vez que perguntam o que está acontecendo. Essas perguntas me fazem lembrar o que acordo todos os dias tentando deixar pra trás. Eles não entenderiam, me encheriam de questionamentos, de julgamentos e não preciso disso quando eu mesma já faço isso todo o tempo. Então, acredite, não é falta de confiança nas pessoas próximas. É vergonha. A mesma que sinto quando procuro respostas. A mesma que sinto quando tomo banho e percorro as mãos pelo meu rosto, meu pescoço e quando seguro meus pulsos e noto o sumiço lento das marcas. A única sensação que tenho é a de que nunca mais eu vou deixar alguém me tocar novamente, ainda que o desejo seja forte e as intenções sejam boas. 

Eu sei, não posso evitar as lágrimas ou mesmo as crises de gastrite nervosa pelo qual você me faz passar pela segunda vez e já decidi que não posso contar essa parte escura a ninguém até me sentir incrivelmente segura, no entanto, tenho tempo suficiente, sozinha é difícil, mas posso tentar aprender a amar e odiar o silêncio. Posso ficar quieta, calada e distante até consegui controlar meus impulsos irracionais e ser madura e adulta outra vez. Posso desfazer do cabelo grande quantas vezes forem necessárias pra marcar meu recomeço até saber que finalmente recomecei. Posso perder pessoas as quais eu não queria perder nesse meu processo de confusão e loucura, mas prefiro que seja assim, não dá pra lhe dar com traumas e medos e manter a atenção voltada pra quem sabemos que está ficando no caminho. Isso me deixa excessivamente triste. Mas vai por mim, ser construída de despedidas faz a gente se acostumar a seguir em frente. E eu sempre vou seguir em frente.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Coisas Que Eu Sei



Ela muda juntamente com as fases da lua acreditando que tem em si inúmeras personalidades. Não gosta do comum, do repetitivo, do constante. Gosta de surpresas, de preferências simples, porém significativas. O importante pra ela é se surpreender. Sobre ela, também sei que gosta de ficar quieta quando tem muito o que pensar. Quando tem muito pra falar prefere gritar em um show de uma banda qualquer. Se fica triste não admite pra ninguém, mas ensaia mentalmente como admitir suas dores pra alguém desconhecido e mesmo quando chora ela sorrir o tempo todo porque acredita que sorrisos atraem a felicidade. Ela tem mania de cantar no chuveiro imaginado que é uma estrela do Rock. Ela canta o tempo todo porque cantar é a forma mais verdadeira que possui de se expressar. Ela tem amigos por toda a parte. Já teve mais, no entanto, não possui o dom mágico de perdoar decepções que pra ela são consideradas indesculpáveis. Ela leva pra sua vida todas as pessoas que encontra. Gosta de ouvir histórias de quem não conhece, de sentir as dores alheias, pois acredita que uma dor pode ser melhor superada se dividida. Tem um amigo que diz que ela cura, mas ele não sabe que toda essa cura fecha suas próprias feridas.

Ela coleciona em uma caixa todos os sonhos que já realizou, mas anota mentalmente os planos que ainda tem pra realizar. Tem mania de se desafiar pra testar seus limites. Por trás de toda essa casca inquebrável guarda um coração puro que jura de pés juntos que só casará com alguém que cantar no ouvido dela Black do Pearl Jam, do mesmo jeito, com toda raiva, dor e sofrimento que Eddie Vedder canta no Pinkpop 1992. Ela dança com constelações, mas espera apenas uma estrela. Já amou tanto e de forma intensa que ainda não conseguiu recuperar a mesma intensidade pra amar de novo. Porém, está sempre tentando e tentando. Não segura outra mão até se se sentir segura, não confia em toques, nem em palavras que não combine com olhos. Não confia em propostas para o futuro. Só no presente. Não gosta de palavras soltas, prefere a escrita ou o som da voz. Ela tem paciência pra esperar, pra não ser, pra ouvir. Não gosta de se sentir presa, não gosta de sentir e quando sente vive fugindo. Tem a mania de sumir e aparecer. Some quando é ameaçada em sentir e aparece quando acha que já não sente mais. Ela sabe que o cara pra ela é o que se fará presente quando ela insistir em desaparecer.  

Ela tem fé. Em si. Nos outros e na força que rege o mundo. Acredita nas boa ações. Não se importa em sofrer, dorme pra esquecer pois Deus em sua bondade e grandeza inspirou aquele escritor a ensiná-la que a manhã seguinte sempre chega pra fazer diferente e quase sempre ela não desperdiça, vai lá e muda tudo. Muda os sonhos, os objetivos, o corte do cabelo, cor do cabelo, a cor das unhas, só não a cor preta das roupas pra balada e o batom vermelho. Ela adora dançar e de preferência sozinha bem no meio da multidão. Quando pede por tequila é porque tem muito pra comemorar ou muito pra esquecer. Quase sempre as duas coisa. Ela é forte. Indecifrável à primeira vista. Tudo que ela guarda não dá pra descobrir de uma só vez. Todas as coisas que eu sei sobre ela resulta de uma convivência longa de 20 e poucos anos e mesmo quando acho que sei tudo, ela insiste em me surpreender.



quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Contar Pra Quê?




Encontrei um bilhete no bolso da sua camisa e também seis recibos do mesmo motel em datas diferentes. Se ambos pedaços de papéis não estivessem em minhas mãos seria impossível acreditar em tamanha e dolorosa traição. Sentei meio atordoada e ali fiquei por tanto tempo que perdi a noção das horas. Eu poderia fazer um escândalo, iniciar uma briga, enfiar a mão na sua cara com a força da minha raiva, mas de quê isso adiantaria? Só me traria mais dor e aumentaria a dimensão do meu sofrimento. Você me conhece, não conhece? Discussão não faz meu tipo e nesse caso abro mão de um diálogo insincero, irracional, cheio de lágrimas, desculpas e historinhas inventadas. Não dá. É demais até pra mim. O estrago tá feito e devo aceitar a insuficiência da nossa relação pra você. Não vou me torturar ainda mais buscando respostas ou motivos que levaram você a se perder por ela. Ou elas, vai saber. 

Eu tô tentando não imaginar você com outro corpo que não o meu. Eu não quero imaginar. Não quero saber como ela é ou como vocês se conheceram. Me recuso a questionar se ela sabia de mim. E se sabia, como pôde aceitar você? Disperso os pensamentos. Eu sei bem o quanto você pode ser misterioso, encantador e adorável. Só não sei o que ela daria que não dei a você. Dei tudo de mim. meus anos, minha juventude, minha escolha, nossos filhos, uma vida, meu sim, meu cuidado, apoio, carinho e o meu coração. Casei com o homem por quem me apaixonei e amei de diversas formas. Ao seu lado tornei meus sonhos reais. No entanto, não posso basear minha decisão nesses fatos. Sou orgulhosa demais pra aceitar na cama que nós dividimos um homem que se divide entre ela e eu. Como todo casal nós cometemos inúmeros erros e superamos juntos, porém você sempre soube que a traição aos meus olhos é um pecado imperdoável. Não vou perdoar.

Levanto decidida, calmamente seguro as malas e começo a arrumar suas coisas, roupas e objetos necessários. Sinto dor. Sinto tanta dor. A tristeza é cruel e essas lágrimas não ajudam. Mas respiro fundo, conto até três, respiro e continuo. Dentro da mala coloco nossas lembranças, nossa história, fico com a decepção e a minha decisão.  Acredite, esse é o último favor que faço a nós dois. Não vou perder meu tempo superando eternas desconfianças e dúvidas pra qualquer frase que sair da sua boca. Não vou me sujeitar a ficar acordada em madrugadas imaginando encontros ou reencontros durante suas viagens. Não vou me rebaixar procurando outros bilhetes. E principalmente não vou me humilhar procurando qualquer vestígio dela no seu celular. Ser racional é entender que eu não conseguiria viver entre idas e vindas com você. Nosso casamento seria um inferno de promessas quebradas. 

Você chega do trabalho como em nossa rotina. Suas malas estão prontas junto com o bilhete e os seis recibos adequadamente visíveis e posicionados. Parada na porta não consigo segurar o sorriso irônico enquanto você se reserva o direito de ficar vergonhosamente calado e sem ação. Pelo menos sei que sua atitude é a reação ao conhecimento que você tem sobre mim. Ou talvez seja a reação aos inúmeros lenços espalhados pelo chão. Não, não, nossos anos dividindo o mesmo teto dá a você o dom suficiente pra saber cada pensamento meu, cada passo e o porque da ausência de uma drama e um surto desnecessário. Ela agora é seu presente. Leva o guarda-chuva e vai. Uma noite por uma vida inteira foi a sua escolha. E o homem que faz essa escolha ou tem certeza do perdão. Ou tem certeza que pode viver sem a pessoa que definitivamente ele não merece. Boa sorte com a segunda opção.

Adeus. 

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Linhas


A canção que tocou na hora errada me fez lembrar de você. Você antes do fim. Uma lembrança que de alguma forma nasceu da minha tranquilidade de hoje em dia. Aumentar a música, fechar os olhos e me permitir alcançar essas memórias foi surpresa até para mim. Eu poderia renegá-las, expulsá-las, sentir raiva, rancor ou tristeza, mas não dessa vez. Eu aceitei as recordações. Todas elas me fizeram rir e entender o quanto você me fez feliz, tanto que em sussurros confessei estar apaixonada, o que era novidade para alguém tão relutante e fria como eu. Eu sei. Sei das qualidades que você viu aqui por trás do meu orgulho, do meu silêncio habitual e imutável, por trás do cuidado e preocupação e do meu jeito inusitado de comemorar teu aniversário. 

Eu contava 12 horas nos dedos pra te rever. Jantar preparado por suas mãos, conversas compartilhadas sobre nós e nossos planos, luz apagada pra viver você. Você e seus abraços quentes tão aconchegantes, tão protetores, tão perfeitos. Dormir com sua respiração no meu pescoço era enfim nossa hora feliz, lembra? Até as pequenas discussões divertidas sobre nossos exs e os possíveis pretendente se tornavam momentos engraçados. O tempo parava pra gente, não é? Sem mágoas, vontade ou desejo me atrevo a dizer que sim, sinto falta de você, do seu cheiro, sinto falta do fim de semana ao seu lado e até de lavar as louças com você me puxando por trás e beijando meu rosto. Teve vida e sol na nossa bonita relação. Teve chuva pra nos deixar ficar na cama e fugir do trabalho. O lado direito do meu lençol favorito ainda é meio vazio, mas não triste, agora ele lembra apenas de você puxando meus braços em sua volta me fazendo atrasar enquanto o alarme insistia em despertar. 

Os teus olhos ainda são nítidos repousando sobre mim enquanto me despedia com um beijo emocionado por não querer ir cumprir minhas obrigações profissionais. Sinto falta dos elogios que eu sempre recebia com bom humor. Os dias eram mais leves com você me enviando mensagens dizendo que ia continuar dormindo com o meu perfume que cobria minha ausência depois que eu partia. Como é bom poder saber que o céu de acinzentado virou azul celeste. Uma pena é perceber que é necessário um tempo imprevisível pra esquecer, superar a dor do fim e então poder ter essas lembranças com o coração calmo e sereno sem qualquer ressentimento. Esses pensamentos e sentimentos bons os quais envolvem minha vida e minha rotina me levam a acreditar que eu poderia ter encarado melhor sua decisão de terminar mesmo não concordando com seus motivos. 

Eu deveria ter desejado boa sorte e ficado em paz. Não, você não é uma pessoa ruim. Se fosse, eu estaria colocando em dúvida meu julgamento quanto as pessoas e me conheço bem pra afirmar que não me interesso por menos do que mereço. Você me fez incrivelmente feliz, meu sofrimento foi a prova disso. A prova de que nunca quis perder você. No entanto, linhas de conexão se perdem, se quebram, se rompem, danificam, se partem. E nós partimos e agora entendo que não havia mais nada sensato a fazer do que me deixar quando a paixão já não existia em você. Hoje eu consigo de alma limpa agradecer a você por isso. Um obrigada que talvez dure pra sempre. Ou pelo menos até essa música de letra bonita acabar. 


domingo, 9 de outubro de 2016

E Se Não Fosse...



Se o relógio tivesse despertado eu não teria perdido a hora. Se não tivesse chovido eu não teria chegado atrasada – Eu nunca me atraso. Se eu não tivesse parado no estacionamento para procurar as chaves. Se eu não tivesse desistido de tomar café para resolver os primeiros problemas da manhã. Se eu não tivesse me arrumado apressadamente para iniciar o plantão eu jamais teria aberto a porta no momento certo e esbarrado em você. Se seus papéis não tivessem sido espalhados pelo chão eu não teria encarado seus olhos e pedido desculpas. Se aqueles segundos não tivessem sido consequências de uma sucessão de fatos eu jamais teria te encontrado. 

Se não fosse a pressa das divisões do ano e as mudanças que em seis meses surgiram eu não teria sido encarregada da sorte de te rever. Se não fosse a lembrança daquele inesperado e desconcertante esbarrão eu não teria tido a chance de ser apresentada adequadamente a você. Se não fosse o toque das mãos seria impossível crer no sorriso mais bonito que recebi de presente em troca do meu desajeitado e atrapalhado “prazer em conhecer”. Se não fosse sua atenção voltada especialmente para o meu carinho, cuidado e disposição na correria daqueles dias malucos sua vontade jamais teria alcançado a minha. Se não fosse sua conversa sobre a tríade e as filosofias que tanto me impressionaram, mesmo você sendo tão encantador, eu nunca teria oferecido minha companhia. Se não fosse sua coragem, segurança e entusiasmo em me conhecer eu jamais saberia como teria sido pertencer a alguém como você. 

Se dentro de mais seis meses eu não tivesse me afeiçoado, me perdido por outra pessoa e depois me encontrado provavelmente não estaria pronta para te reviver. Se o mundo e as estações não tivessem se transformado não seria eu a mesma garota com quem você esbarrou sem querer. Se o relógio não tivesse despertado, as horas teriam me confundido. Mas dessa vez não. Dessa vez não me atrasaria para te receber. Porém, se não fosse a azáfama daquela manhã eu não teria perdido a noção do espaço e doado toda minha atenção de forma singular sem me importar com o que acontecia ao redor. Se não fosse a pressa você não teria me surpreendido ao se manter em pé silenciosamente atrás de mim, esperando pacientemente que eu me virasse e esbarrasse mais uma vez em você reencontrando seus olhos e sorriso acolhedor a minha saudade. 

Estando em seus braços não contei, mas ali, quieta em meio a uma felicidade infinita só conseguia escrever mentalmente todos os acontecimentos desde que nos topamos acidentalmente no corredor. Se as pessoas não planejassem tanto seus próprios passos talvez o destino pudesse assumir o seu papel de causador de fatos independente de vontades. Se não fosse assim não seríamos então a prova da existência do destino, sorte, acaso ou energia. Chame como preferir. O que é para ser seu, não se preocupe, será. Porque nós éramos de mundos completamente diferentes e ainda assim conseguimos ser apresentados pela vida da forma mais esdrúxula e impossível. Então, digo a todos que vivam e prestem atenção no agora, quando é para acontecer é simples, tem dia, lugar e tem hora.


segunda-feira, 3 de outubro de 2016

É Dele O Melhor Abraço




– Olá estranho. 
– Olá desconhecida. 

E é assim que cumprimentam-se naquele mundo favorito que compartilham: O do Rock and Roll. Ele é o outro lado dela. O lado divertido. O lado maluco entre Natasha e Bete Balanço. O lado que imprevisivelmente entra em cena sozinho ou acompanhado sem importar. Ela nunca olha em volta. mesmo. Quem a vê sentada já sabe perfeitamente que ela aproveita até a última gota a alforria da vida corrida, da rotina cansativa de pessoas e suas conversas desinteressantes. Pra ele, ela é só a garota do bar e na verdade ela adora que seja assim. A complicada garota é mais ela ali do que em qualquer outro lugar e é na espera pela cerveja que ela deixa tudo pra lá, o que quer é apenas curtir e recarregar as baterias com tudo que o momento tem a oferecer.

Como a companhia dele. Ele sempre tem respostas prontas e bem humoradas. É alegre. Engraçado. Totalmente alto astral. Provoca sorrisos involuntários. Possui o melhor abraço. O que cura o tédio. Perto dele a energia é boa demais. Não houve noite sequer que ele não estivesse animado pra cantar, pra tocar, pra contagiar. O lugar que pertence definitivamente é o palco. Ele vive. É isso que ela admira, o sangue quente correndo nas veias de quem sabe gozar a liberdade da vida. Ele é assim. Sente o som, vai fundo e leva junto quem estiver ao redor. Perfeita definição de felicidade. Felicidade já dizia o mestre: "É só uma questão de ser". E os dois são. Cada um com sua loucura e de loucura, vai por mim, eles entendem bem.

Tão bem que em raros instantes de ousadia arriscam um dueto raro e por parte dela um tanto desafinado. Embora não conheça o passado, as dores e os amores dele é de olhos fechados que ela tem fé de que esse moço é capaz de fazer qualquer coisa. De ser quem quiser. De orgulhosamente escrever o seu destino. De ir além. De ultrapassar a barreira do próprio som. O mesmo som que liberta o corpo, alma e o temível amor, afinal quem melhor pra ser o porta voz do amor do que aquele que o transmite em forma de música? A música tem um poder imensurável, indefinível, incomparável. E incrível. Tanto a ponto de fazê-la acreditar em versos de que os loucos e exagerados amam mais. Por essas e outras é que ela é tão determinada e ele espontâneo. E se não fosse dessa forma seriam previsivelmente chatos e sem graça. Dos outros e até de si mesma ela sempre vai esperar e querer mais. E por que não dele também? O mundo é pra quem tem coragem. E de uma coisa eu sei, medo ele não tem.

domingo, 2 de outubro de 2016

O Máximo de Nós Dois


Pensamento positivo e as melhores expectativas. Eles esforçaram-se e na décima tentativa tornaram-se enfim a parte real do presente. Hora marcada que deu certo. Mensagem que chegou e ligação feita para não se perderem. O tempo parou para dar uma chance as suas vontades. O destino deu trégua e permitiu um espaço para serem conversa sem interrupção, pra serem dança e confissão. Transformaram-se em cúmplices de uma noite perfeita. Espera que valeu cada desencontro e cada desentendimento. Espera que valeu cada segundo do momento em que viveram um ao outro. Eles foram desejos saciados, foram prazer alimentado entre beijos e abraços em uma madrugada radiante. 

Nada se compara a intensidade da respiração de duas pessoas que ambicionam se pertencerem. Você consegue sentir o medo não antes, mas durante. O medo está nos dedos que agarram com força o que não pode te pertencer. Já sentiu? A mão percorrer o cabelo, o pescoço e segurar com determinação um abraço quente que em meio a um silêncio de réus seria incapaz de permitir o fim. Haveria sempre a lembrança da inquietude, do ritmo acelerado, da inspiração ofegante, do beijo ardente e aguardado. Haveria consequentemente a recordação dos gemidos e voz urgente prontificada em pedir mais por favor – Por favor só se pede quando sabe que a vida não dará oportunidade de viver a mesma mágica uma segunda vez. O gosto do sal do suor tem sabor diferente quando o querer é reciproco. É vinho envelhecido bebido até a última gota em uma entrega despida de qualquer pudor, indecência ou desonestidade. 

Dessa vez o relógio esperou por eles. Deitados sobre o cansaço divertiram-se com os segredos compartilhados, as afinidades trocadas e a segurança que os encobriam das desconfianças do mundo. Isolados em um quarto escuro amaram-se mais uma vez entre a calma e o romantismo, sem pressa, aproveitaram os pequenos detalhes como alguém que se vicia no sabor que sabem que não mais sentirão. Sabem que não irão esquecer. Sabem que o desejo quando está no sangue e não mais na pele parar é praticamente impossível. Sabem que o desejo ébrio pode ser inevitavelmente provocante, desafiador e perigoso, tão perigoso que se torna irresistível. Eles dois sabem que se persistirem em continuar não terão limites e talvez por saberem que fizeram dessa última tentativa a memória perfeita do prazer absoluto. E eu talvez por saber que serão incertos pela eternidade é que transformei em escrita como seriam se o destino não complicasse tanto seus planos. O perto é inexistente e talvez a sina deles seja realmente ficar um sem o outro. Não são pra ser. E não foram.

E quando você se foi eu aceitei que a imaginação é o máximo que terei de nós dois


No Fim Todo Mundo Mente



Fui contratada como antiga cortesã, o objetivo era fazer de seis meses o tempo necessário pra você me amar. Eu deveria fazer você passar por todas as etapas de um relacionamento: A magia da conquista. O inevitável desejo. A insana paixão. A loucura do ciúme. O confesso amor. A dor da traição e o sofrimento por não ter mais o que um dia lhe pertenceu. A descrença no amor por minha parte foi o que fez de mim a pessoa qualificada para realizar o que me foi pedido. A contratante sabia melhor do que qualquer um sobre meus passos sem rastros por lados que eu jamais admitiria. Ela sabia do meu histórico pesaroso de desencontros e sumiços. Ela não revelou suas intenções o que não me causou desconfiança alguma, faz parte das minhas regras nunca fazer perguntas. 

Fui designada para fingir, mentir, omitir e fazer o que estivesse ao meu alcance para você acreditar na sua enorme importância em minha vida. Fui orientada a implorar, pedir por favor, por nós ou mesmo por mim até te convencer que o amor existe, que coragem é preciso e que eu poderia amá-lo sem limites. Eu sorri falsamente, eu rir das piadas sem graça, eu beijei de olhos abertos, eu abracei sem sentir, eu baguncei tua cama, teu armário, tua cozinha. Eu desarrumei toda tua vida enquanto lá fora eu permitia que alguém arruinasse a minha. Eu revirei tuas crenças sobre a definição de sentimento puro, eu te fiz querer mais da garota divertida, da garota de tinta no cabelo e unhas coloridas. Foi fácil demais despertar teu interesse quando você era um infinito de carência e romantismo. Eu disse não só pra induzir teu sim. Eu fui embora tantas vezes só pra ver você ser capaz de voltar pra mim. 

As pessoas ao redor pensam que me conhece, acham mesmo que o amor é inexistente e inalcançável para o meu coração, acreditam que aquela que seduz por divertimento ou por apostas seja realmente o que sou. Não sou. Sou a garota insegura, de lágrimas reais, de coração aberto e simples. Sou a garota que abriu espaço pra alguém vir e fazer diferente, mas ele não fez. Coloquei nas mãos dele a oportunidade de me fazer feliz e ele desistiu. Me contou mentiras, me fez crer que eu tinha feito tudo errado. Me deixou no silêncio. Ele foi a vida real enquanto eu fazia teatro da sua. Mas você passou a ser meu alicerce quando ele fez o chão desaparecer sob meus pés. Enquanto ele bagunçava meus pensamentos você me acalmava sem saber. Chorei em seu colo por outro enquanto você acreditava ser por você. Fiz você amar minha carência quando a mesma era consequência da minha imprudência em aceitar ser a meretriz de luxo paga por quem queria ver você sofrer. 

Eu sinto muito. Mas é o quinto mês. Já fui tantas personagens que não consigo mais diferenciar fingimento de veracidade. Não sei se fui eu mesma com você e atriz com ele ou vice e versa. Me perdi. Quando ele foi embora eu me apeguei a tua companhia, de repente me interessei por teus gostos, sorri com teu sorriso, pedi por teus abraços e fechei os olhos pra sentir teu beijo. Você ingenuamente se permitiu viver a traição. Ainda que você me segure, ainda que você me ofereça um porto seguro e lençóis limpos. Honestamente, não posso mudar. Não posso ficar. Ele me tem nos dedos e na pele e até que não seja mais assim eu não vou consegui amar. É a sétima e última etapa. Junto as malas, me refaço inteira, esqueço de você e dele. Me despeço e abandono o que me conecta ao passado. Você não merecia ter o coração quebrado. E ele não deveria ter quebrado o meu. Mas não se preocupe, o amor é um ciclo de acertos e consertos. Entre desculpas e culpas no fim todo mundo mente.

Eu menti.



quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Você Não Me Conhece


Vidros se quebram. Meu coração não mais. Todas as portas e janelas fechadas por você me apresentaram novas opções de fuga. Eu tive que aprender sozinha a suportar a solidão, a encarar o nada que me restou, a enfrentar as noites de insônia, a suportar os gritos na minha mente mesmo quando inconsciente. Todos aqueles pesadelos, reviver você como se ainda me pertencesse. Tive que lembrar como ficar em pé novamente depois de ter sido desestabilizada pelo fim das mentiras que contou. Você não chegaria nem perto se tentasse imaginar como foi recomeçar com tantos cortes. Eu quase enlouqueci com a dor da perda. Tive que acordar todos os dias com o vazio do lado esquerdo da cama, o silêncio na cozinha e em todos os espaços que você preencheu. Cada canto da casa foi testemunha da minha inércia. Parecia cedo demais pra esquecer. 

Cristais se quebram. Minha alma não mais. Não depois de me reconstruir. Não depois daquele leito de hospital se tornar o limite. Foi de lá que vi todos os que amo fecharem a porta depois que repeti que não precisava de ajuda. Sempre orgulhosa com os outros, mas nunca com você. Com você ou por você eu só sabia deixar meu orgulho no chão. Perdi a noção da diferença entre luta e humilhação. Quando dei conta que me tornei tudo que eu criticava naqueles que não conseguiam superar o fim de um relacionamento decidi me reencontrar. Sozinha. Porque o primeiro passo era me acostumar com minha própria companhia. Voltei pra casa e coloquei meu mundo no lugar. Cortei os cabelos, mudei a cor e a vida. Fiz do vermelho a cor do meu recomeço e apresentei um rosto diferente na manhã seguinte. Não contei o tempo, mas senti quando o inverno virou verão na luz do dia tão violeta. Quando o sol aqueceu meu coração fiquei em paz. Contei meus sonhos e segredos pra um estranho que disse que nada é impossível. Então voltei e larguei o passado na lata de lixo que o pertencia

Orgulho é como espelho. O seu finalmente quebrou. Mas você ainda é incapaz de compreender o que digo. Você supõe que vindo até aqui vai encontrar redenção, remissão, perdão? Vai encontrar a garota insegura, frágil ou hesitante que você deixou pra trás? Porque isso explica o cuidado com o qual você me procurou. Silêncio. Não há vestígios de algo que um dia foi amado por mim. Não há qualidades que poderiam ser novamente amadas. Você é uma caixa ambulante de defeitos e maldade. Você me faz rir com todo esse arrependimento e curiosidade sobre meus recentes laços afetivos. Você me deixou sem nada. No entanto, quem não tem mais nada também não tem medo, concorda? Você merece meu enorme obrigada. Essa força, essa consciência do que mereço e de quem sou, essa segurança e firmeza no olhar e nas palavras, tudo isso foi graças a loucura e o caos que você me fez enfrentar. Meu lado sombrio foi assustador, mas aprendi a brincar com meus próprios monstros noturnos. Não foi apenas sobrevivência. Foi prosperidade. Mas você só vai conseguir entender minha verdadeira felicidade quando deixar de achar que meus sentimentos são seus. Você pergunta o que pode fazer por mim ou por nós. Você não me conhece, então que tal desaparecer? 



domingo, 25 de setembro de 2016

Seja Egoísta


Vou contar um segredo: As pessoas egoístas são mais felizes. Calma, eu explico, não falo daquele egoísmo de conseguir felicidade e realização pessoal fazendo o próximo de escada. Há várias definições de egoísmo, sério, só jogar no google, dessa forma há entre estas a que diz que o egoísta é quem coloca seu amor próprio em primeiro lugar. Certo. É dessa definição que parte a minha teoria de felicidade. A prática constante de atender e executar a vontade sem se importar com o que o vizinho, o colega, o amigo ou até mesmo o desconhecido vão pensar, julgar, comentar.  O mundo não é uma competição de quem tem a vida perfeita, mas o ser humano ainda se considera um ser divino com o poder de julgamento e sob esses olhares você vai errar, vai tropeçar, vai fazer escolhas erradas, vai tomar decisões que não agradarão a todos, vai perder amizades e amores, algumas vezes terá culpa, outras não. Vai se arrepender, embora diga que não. E como você enfrentará tudo isso?

Sendo egoísta pra aceitar e conviver com seus erros, seus tropeços, suas escolhas e suas decisões. Sendo egoísta pra entender que pessoas entram e saem da nossa vida e os amores precisam partir pra outras possibilidades de amor chegar. Então abra os olhos, há mais ao redor do que você consegue enxergar com essa visão limitada de quem precisa corresponder as expectativas alheias. Expectativas de pessoas pequenas só irão diminuir você. Portanto, seja egoísta, depois de grandes e turbulentas decepções você se sentirá sozinho, acredite, eu sei bem. Mas já te contaram que na solidão há lucidez? Há momentos que serão necessários viver um pouco de solidão mesmo.  Para os de mente fechada, solidão pode ser sinônimo de rejeição ou um imenso vazio. Para os de mente aberta, solidão significa o momento vivenciado com nosso próprio eu pela busca de um sentido existencial para a vida.  É na solidão que você descobrirá que a felicidade está além do que podemos tocar e a paz de espírito só poderá ser encontrada dentro de você. No entanto, para vivenciar essas descobertas você precisará desenvolver o equilíbrio entre o corpo, a mente e a alma. A harmonia dessa tríade permite o conhecimento interior e a sensação do que chamo de positividade. Você já conheceu alguém rico em energia positiva? São pessoas completas de luz. 

Essas pessoas guiam, iluminam, aquecem, acrescentam, somam, fazem o bem, você se sente em casa apenas por estar perto. Elas te impulsionam, curam e vivem o egoísmo como uma forma de se observarem e assim serem melhores para o outro. Nunca perca essas pessoas. Se mantenha ao lado delas e seja também egoísta o suficiente pra dedicar um tempo a você, pois é somente quando estiver sozinho que conseguirá entender o verdadeiro significado de liberdade, o processo para este fim é lento e demorado, mas você chega lá. Amadureça sua mente pra deixar que outros conhecimentos sejam absorvidos. Seja autentica. Mas parta do ponto que autenticidade é desprender-se da ideia de que ser ou estar sozinho é abandono e vergonhoso. Use sua mente pra aprender a curtir sua própria companhia, em qualquer lugar, sob qualquer olhares, alimente seus sentidos com o que você gosta seja ouvindo música, lendo aquele livro do escritor favorito, compondo, escrevendo, fazendo atividades físicas ou estudando. Você quem escolhe as práticas necessárias para desenvolver o equilíbrio da sua própria tríade. 

Quando aprendi ser egoísta encontrei equilíbrio estando sozinha seja em casa fazendo meus próprios mapas mentais aceitando tudo o que chega, se vai ou que ainda nem aconteceu; Seja sozinha em um bar ouvindo a banda dos meus amigos que sempre tocam minha música favorita que implora por um daqueles solos de guitarra bem longos quem realinham a alma. Quando me tornei egoísta aprendi a silenciar pra me ouvir mais. Aprendi a ser paciente e deixar as coisas acontecerem confiando na vida. Aprendi que o amor é o que sou e o que posso transmitir. Aprendi que oração não é só um texto batido e sim uma conversa sincera do meu coação com Deus. Quando aprendi a ser egoísta entendi que a opinião alheia só me importa se for pra lembrar quem eu sou. E me conhecendo poderei julgar se estou ou não desviando do meu caminho.  Quando aprendi ser egoísta tive a certeza que pra conseguir seguir em frente é necessário deixar livre o que ficou pra trás. A solidão não é inimiga. Você precisa de um pouco de solidão e egoísmo - amor próprio - pra se descobrir. Pra se encontrar. Pra se amar mais. Pra viver mais. Sentir mais. Você só precisa estar disposto a abrir sua mente. 



domingo, 18 de setembro de 2016

Nas Curvas da Estrada



Os anos passaram e os e-mails se perderam. Não ficaram fotos e a memória não foi forte o suficiente pra manter nítida aquela história no coração. Então pergunto: Tem lembranças? A distância percorrida desfez os planos, a despedida inexistente deu a esperança que tão logo seríamos reencontro. Seis anos é o tempo que tem aquele enorme presente de natal, tanta questão em dá-lo antes de partir, não fez sentido se a felicidade por ganhá-lo não pôde ser dividida. O avião que atravessou o país, o carro que cortou a cidade na madrugada pra viver um único dia. Existem inúmeras formas de se confessar o amor, no entanto, cometer loucuras é e sempre será a forma mais bonita. 

Foram palavras de promessas por anos, paixão não sobrevive de frases feitas, não há dúvidas do amor, o amor fez mais do que podia, mas a vida quando quer ser contra, vontades são inúteis. As vozes trêmulas de saudade eram detalhes que insistiam em querer se fazer presente e estar perto chegou ao nível máximo do impossível. Separados pela infinita estrada, longos quilômetros, viagem cansativa demais, era aquele o fim não dito. Foi o eu te amo mais sussurrado, o abraço mais cúmplice e demorado. Era o fim. Falas não eram necessárias. O aeroporto cheio de gente desconhecida testemunhava o ultimo beijo na testa e o se cuida carregado de desejo de se verem outra vez. 

Embora os anos passem e a pasta de e-mails tenha sido excluída é difícil apagar um amor complicado por seus caminhos desiguais. A chegada trouxe a primeira paixão vivida até o limite. Ou mais além. Foi amor demais sem juízo. Pra experimentar o sabor do que é novo aprendemos a ser discrição. A mais perfeita discrição nos manteve ilesos. A partida o levou, mas manteve a promessa de que não saberia quando a separação fosse o melhor para os dois. Mesmo estando ali, ignoramos por completo o clima da despedida, com isso a ponta solta da espera permaneceu, mas desapareceu quando nossos aviões pousaram em lugares totalmente diferentes e eu nunca mais soube qualquer notícia do seu último destino, assim como da sua vida. Há lembranças aqui sim e elas aparecem sempre que algo as despertam. Se cuida só é dito pra quem queremos cuidar e não podemos. E de 2010 pra cá ainda continuo odiando despedidas, elas me lembram o quanto foi difícil não morrer mil vezes sempre que me recordasse do amor que nem sei se um dia vou consegui esquecer. Então só posso evitar. 







quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Desculpe o Transtorno, Preciso Falar do Meu Ex



Conheci o ex na loucura do carnaval desse ano. Eu era a garota fantasiada de Katy Perry com cílios, maquiagem e cabelo azul andando de um lado pro outro, dançando, rodopiando, cantando que se a bendita canoa virasse ainda assim eu chegava lá. Carnaval é isso: Diversão, alto astral, trenzinho, paquera, inúmeros brindes, copos de cerveja e filas dos banheiros imensas.  Na espera pela minha vez olha lá o moço bonito atrás de mim. Ousei dizer sem o conhecer o quanto seus olhos verdes eram lindos. Ele só riu - Não sei se da peruca, do elogio ou porque me achou louca. Tempos depois descobri que ele me achou maluca mesmo (risos!). Começamos a conversar sobre gostos musicais esquisitos e para nossa alegria ele compartilhava a mesma fascinação por Legião Urbana. Papo vai, papo vem e beijei o moço, pedi desculpas depois, mas ele meio que gostou então foram vários beijos no meio daquele gente toda. 

- Não vamos estragar tudo trocando telefones - Eu disse.
- Como eu acho você?
- A gente se esbarra por aí.

Ele me achou. No dia seguinte apareceu lá em casa. Foi estranho ele me ver sem peruca. Me senti a própria Vivian (Julia Roberts) em Uma Linda Mulher. Convite aceito. Vivemos uma tarde perfeita. Daquelas que você descobre infinitas afinidades em diálogos imprevisíveis. Não existia pessoa mais desapegada que eu. Tudo era passatempo e diversão. Três meses depois continuávamos nos encontrando. Ligações intermináveis pela madrugada. Insistência para que eu fosse vê-lo por 10 ou 20 minutos quando meu corpo todo era cansaço do trabalho. Era sempre "não é nada sério", "não há nada demais entre a gente". Até ele amanhecer na minha casa e eu anoitecer na dele. Incontáveis vezes. Foram intensas idas, vindas, discussões e pazes feitas. Perdi a conta de quantas vezes o vi me esperando pra conversar. Tivemos várias brigas por telefone. Várias tentativas de acertos. Aí chegou a fase das mudanças repentinas: os sumiços, o "tô sem tempo", "a gente se fala amanhã', ou "a gente se vê quando der". As desculpas se tornaram insuficientes e insustentáveis. Enquanto me dava conta de que queria mais ele desfilava com outra ali e outra lá. Toda semana uma nova versão das descrições de alguém vista com ele que a propósito não era eu. Decidi dá um tempo e viajar.

Era o quarto mês. Duas semanas sem vê-lo. Ele ressurgiu dos desaparecidos contanto histórias sobre seus arrependimentos e sua enorme saudade. Disse que estava pronto. Exposto. Trouxe nas mãos propostas de recomeço. Mais uma vez. Dessa vez seria apenas ele, eu e todo o futuro que me oferecia. Impus condições ao esclarecer sobre meus dias de chuva nos olhos. Ele insistiu em segunda chance e dei créditos a ele por sua coragem sendo ele tão orgulhoso. Cinco horas de conversas sobre minhas desconfianças, enfim ficamos bem. Esqueci o passado e os erros. Nos comprometemos a ouvir, a cuidar, a estar presente, a ajudar no que fosse preciso. "Eu não sei se gosto ou se realmente amo você" - Ele disse depois de preparar um jantar romântico com direito ao meu prato favorito que somente ele sabe a receita. Voltamos. Firmes e fortes, Em duas semanas fomos o casal perfeito de comerciais onde o homem leva café da manhã na cama, te abraça no meio da noite, apaga a luz, mas antes de dormir pergunta como foi o dia. Onde a mulher te coloca no colo pra ouvir seus problemas, te faz sorrir ao ensinar aqueles passos de dança, canta pra te acalmar quando tudo em volta parece desmoronar. Aqueles casais que passam o domingo na cama e conversam sobre seus exs e acham graças das coisas bobas que fizeram por pensar que era amor o que sentiam. Ingênua. Tínhamos tudo pra dar errado. E demos. Quem tem no destino ser canalha não muda facilmente.

Ele me deixou. Brigamos quando os problemas resolveram me inundar de uma só vez. Brigamos no único dia que eu mais precisei do seu apoio. Brigamos pelo que considerei tolice, besteira, criancice, imaturidade. Brigamos quando no meio da briga eu implorava que ele não fizesse isso comigo. Não de novo. Mas ele foi cruel. Tanto nas atitudes quanto nas palavras. Depois desse dia só nos falamos quando apareci pra buscar minhas lembranças na casa dele. Tentei trazer ele de volta através das possibilidades que inventei. Ele já tinha partido de mim há muito tempo com a ajuda daquela amiga que nunca gostou de nós juntos. Foi o meu inferno. Não vou me repetir sobre a escuridão dos dias seguintes e de como aprendi a silenciar em toda e qualquer situação. Ele me condenou a insegurança, a insensibilidade, a indiferença e a uma enorme vontade de jamais me deixar perder a razão novamente. 

Mas querido ex, me desculpa.
Esse texto é pra dizer que não deu. Achei que fosse doer pra sempre. Não doeu. A dor? Essa tem prazo de validade. E venceu. Achei que sofreria por mil luas, mas as noites viraram confidentes. Pensei que não haveria recomeço. E houve. Não sei dizer o momento que você desapareceu, o que sei foi que te revi e o frio não estava mais aqui. Foi mal ex, me interessei por outro, na verdade outros. Eles foram incríveis. Tão incríveis que me mostraram o quão babaca você foi em perder uma mulher singular, rara, especial, diferente, divertida, riquíssima em valores e inteligência (risos!). Dia desses falei sobre você. Assunto normal. Conversávamos sobre nossos exs e as coisas bobas que fazemos por pensar que é amor. Eu ri. No fundo você sempre soube, não é? Aquele apelido carinhoso de "cabeça virada"era a prova de que você sabia melhor que ninguém da minha inconstância em sentir tanto e depois não sentir nada.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Eu Te Quis Moça


Eu te quis moça. 
Um querer que começou e não percebi. Um querer de coração contido e calmo. Um querer simples, doce e fácil. Eu te quis pra colocá-la em meus braços, vê-la adormecer sob o carinho do meu colo em noites de pingos de chuva no telhado. Você tinha mistério na personalidade e um medo que se não visto com olhos atentos passaria despercebido por trás desse disfarce de moça segura que sabe o que quer, mas na verdade não sabe o que fazer com tantas opções na sua frente. 

Eu te quis moça.
Naquele aperto de mão desajeitado, naquele abraço apertado que me dava uma vontade danada de cuidar de você, de saber as histórias sobre como chegou até aqui tão serena por fora e ao mesmo tempo tão confusa por dentro. Eu te quis nas mensagens de boa noite, você não viu? Eu te quis nas ligações que não atendeu. Você por motivos desconhecidos não me deixou entrar pra te mostrar o mundo lá fora. Insisti em te querer bem. Insisti em te fazer entender que do meu lado você não precisava segurar as minhas mãos, não até se sentir segura. 

Eu te quis moça.
Pra se aventurar, pra te escrever na minha história, pra ver no que ia dar, pra não planejar. A gente só precisava ir e se deixar levar. Você estava frágil e insegura. Fazendo coisas que não disse. E dizendo coisas que não tinha intenção de fazer. Tudo foi encenação, teatro perfeito. Me pergunto quem você queria impressionar? Ou o quanto você queria esconder? Ou se eu quem estava querendo a moça que não valia o esforço e as boas intenções. No entanto, quero deixar claro que te quis moça. Mas você se fechou e me deu a certeza de que é preciso muito mais que um querer. É preciso coragem pra se jogar. A coragem que te faltou nos momentos de indecisão e incerteza. Você, pequena, não se permitiu viver.

Eu te quis moça.
E a espera cansou minha vontade. Não importa o que você faça ou diga agora. 
É tarde. Outra me quis por você.