A Lunática

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Belém, Pará, Brazil
Nutricionista. Canta por aí. Escreve sobre o que vë, ouve e imagina. Ela é aquariana, rapaz uma eterna colecionadoras de momentos e de pessoas. Inconstante e com uma personalidade gigante assim como o mar. A diferença é que ela vai, mas não volta.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Serve Outra Dose


Recolhe essa dose. Eu passo em frente. O gosto doce de embriaguez fácil se tornou enjoativo. Dispenso essa bebida que não esquenta, não queima, não possui efeito na mente e nem no corpo.  Na verdade, essa garrafa é daquelas de embalagem bonita, de rótulo perfeitamente comercializado que desperta um interesse inevitável de provar o sabor por ser novidade. Não há curiosidade que resista a um gole que seja. A cor convidativa abre as portas: É pegar ou largar. Pode guardar, sinto muito, esta não atendeu as minhas exigentes expectativas, a porção chega, foi mais que o suficiente. A propaganda foi totalmente ilusória. Falsa. Manipuladora. Mentirosa. Eu já confessei? Odeio mentiras. Elas sempre são acompanhadas de um texto decorado e um rosto tranquilo. Os mocinhos passam confiança intacta,  é quase impossível desconfiar das respostas tão seguras, tão firmes e cheias de convicção. Não há hesitação na historinha ensaiada e contada, mas o que podemos esperar de alguém que as repetiu tantas e tantas vezes? 

Coloca na adega, desse álcool batizado quero distância, não serve nem pra degustação, continuar a beber desse liquido é causar desprazer e uma completa insatisfação a mim mesma. Como poderia eu elogiar tal conteúdo falsificado? Foi desleal me oferecer algo tão descartável e sem qualidade alguma. Por sorte ao descobrir as inverdades que o mocinho pérfido contou pude distinguir o veneno que descia pela minha garganta mascarado pelo sabor adocicado. Mentiras. Sempre tão belas na voz de sedutores impostores. Soam tão reais, tão encantadoras. Como duvidar?  Acreditei que aquele copo facilmente servido me possibilitaria as sensações prometidas, mas no máximo senti aversão e repúdio ao ouvir as delações de quem já havia provado da mesma bebida e ao contrário de mim conseguido se embriagar com êxito. Foram inúmeros convites a diferentes paladares, seria eu a única garota a ter descoberto o objetivo do jogo sem querer? 

Serve outra dose. De outra bebida. Outra qualidade. Pode misturar sabores, usar várias garrafas, Aceito um drink, então capricha. Se não for pedir muito acrescenta tequila. Quero que essa medida faça valer a pena o meu tempo, que destile o meu sangue e que seja forte. Quero sentir a verdade arder. Aproveita que tô no balcão do bar e serve flambado, quero fogo sobre o copo.  Me conceda a chance de virar tudo de uma só vez e esquecer que quase me deixei cair em tentação. Esquecer que desejei o que já passou por tantas mãos. Por isso moço agora quero somente do sabor que já conheço, mais do mesmo, nada que seja excessivamente doce, o amadeirado sempre consumiu mais dos meus poros. Essa sim é a sensação autêntica, nada submerso, nada encoberto, nada omitido, tudo enfim revelado, nomes e tempo. É o prazer da legitima sinceridade. Prazer esse desconhecido por quem tentou me vender caro demais o que não possuía valor algum. 

"Bebe e diverte-te pois nosso tempo na Terra é curto e a morte dura para sempre." (Amphis)