A Lunática

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Belém, Pará, Brazil
Nutricionista. Canta por aí. Escreve sobre o que vë, ouve e imagina. Ela é aquariana, rapaz uma eterna colecionadoras de momentos e de pessoas. Inconstante e com uma personalidade gigante assim como o mar. A diferença é que ela vai, mas não volta.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Carta Aberta para Gabito Nunes

Texto Aprovado pra Publicação pelo Próprio Lucas Simões

CARTA ABERTA PARA GABITO NUNES
Por Lucas Simões

Novembro, quase verão de um ano ruim. É com uma alegria que nem tenho agora que venho te escrever. Acho que convenço, então não pare de ler. De uma forma ou de outra, você me fez acreditar que aquela manhã seguinte realmente sempre chega e que uma garota viciada em café pode sim valer a pena, contando que toque a música certa, ainda que seja a hora errada. Dei play no seu JunkeBox e reli o seu texto mais bonito. "Vício, samba e tu". Uma expressão que carrega sinceridade dentro de um amor inevitável e sem razão. Uma coisa rara e antiga, eu diria. Um sentimento compreensível de poder dar certo ao sair de cima do muro e encarar o que for ou ficar.

Acho que é isso. Você trouxe mais vontade às pessoas de matar ou morrer. À sua maneira, acrescentou ao século XXI um amor um pouco mais honesto e largado de pontuações, dentro de relações crônicas e diárias de perdas, danos e recomeços apaixonantes. All My Loving, baby. Acho que faltava mesmo isso para uma pequena geração desconexa que cresceu sem gosto pela literatura, obrigada à José de Alencar e Guimarães Rosa, os gênios de calhamaços incompreensíveis para aquela molecada de quatorze anos de idade, que achava que amor estava na dificuldade de entender um parágrafo ou no olhar indiferente de uma menina mascando chiclete em câmera lenta. Vê só, hoje essa mesma turma abre as redes sociais pra ler poesia, cara. Compra livro produzido em blog e nem tem tanto apreço mais pelas babaquices da MTV. Tempos modernos e coisas boas.

Toca "Silent Sigh – Badyl Drawn Boy". Acho que é uma das canções que te fizeram pegar uma cerveja na geladeira e ficar olhando sem pressa aquela menina esparramada na tua cama: usando uma blusa estampada com a língua dos Stones abaixo do joelho, só de calcinha e com as pernas cruzadas pra cima. Como é que você diz mesmo nessa hora? "Eu vou querer um romance, sem gelo por favor". Sempre achei a felicidade muito sexual, presa dentro de quatro paredes na companhia de alguém que te arranca um sorriso à toa. Amor é outra coisa, claro. Às vezes você encontra escondido bem embaixo dos lençóis depois do êxtase. Às vezes você continua procurando. Nunca se sabe.

Nunca fui a Porto Alegre e não sei como o sol nasce por cima dos pampas gaúchos. Prefiro imaginar que é um retrato bonito, com uma moça envolvente rindo de lado na ponta da foto atrás de um extenso verde que se perde dentro da nossa cabeça de tanto olhar. A beleza está nos olhos de quem vê e tudo fica um pouco mais bonito e atormentador quando a gente sabe que não tem todo o tempo do mundo para se arrepender do que não foi. Quantas pessoas você amou até agora? Dá tempo ainda? Sei que você está doente. Assim como a maior parte da população. "Todo mundo é parecido quando sente dor", o Frejat cantou.

Porra nenhuma, porque não foi você que estava deitado naquela cama de hospital cheio de agulhas e exames negativos medindo sua fé para os próximos anos. Sei o que você está pensando. Não tem Ana nem qualquer outra mulher no mundo que invente rimas capazes de te arrancar um suspiro crente numa hora dessas. Escuta "Come Here – Kath Bloom" que você vai entender a situação para não fazer esses paralelos assim mais. Acredito que as crianças na Etiópia morrendo de fome não fazem mesmo diferença diante do nosso egoísmo necessário de esmiuçar a própria fraqueza. Dor a gente não compara. Cada um sente a sua e sorte de quem achar um alguém pra compartilhar e poder segurar as pontas junto.

A música que eu tenho para você é "Don't Look Back Anger – Oasis", um desfecho para as horas de desânimo ou sei lá. Qualquer pessoa pode salvar o seu próprio mundo com isso rolando no som do carro, olhando as faixas amarelas-paralelas a cento e vinte quilômetros por hora na estrada. Não se perca, não se esqueça, não pare e não tenha pressa porque as coisas vão chegar logo – você já disse isso antes. O amanhã vem, não solta essa mão. Um aceno de longe e fica com Deus, esse canalha paizão. Ele existe em algum lugar, não precisa acreditar. Só saber. Abre um sorriso, que é assim que se põe fé nas próximas topadas desonestas da vida.

Essa Texto nasceu a partir dessa Carta Aqui